27 de outubro de 2017

Renda fixa ainda vale a pena com queda da Selic?

É habitual que investidores fiquem preocupados com renda fixa – principalmente Tesouro Selic – quando a taxa de juros cai. Será que ainda vale a pena investir em RF? Fizemos todos os cálculos e vamos te mostrar que sim.

Após mais uma reunião do Copom, a taxa Selic caiu. A taxa básica de juros do país é indexador para diversos investimentos em renda fixa no país – inclusive para o CDI –, servindo quase que diretamente como um mensurador de rentabilidade. Após a queda, como de costume, investidores começam a se perguntar: ainda vale a pena manter dinheiro em renda fixa?

É de se esperar que as pessoas que não têm contato direto com o mercado financeiro (ou conhecimentos mais detalhados de economia) acabem sofrendo influência da mídia que alarma a queda da Selic como prejudicial a investimentos conservadores, mas o cálculo não pode ser tão raso.

A preocupação em saber se a renda fixa continua valendo a pena com a queda da Selic é algo normal, principalmente quando estamos falando de todas as suas economias de vida. Dizer simplesmente que “você não deve se preocupar” não é suficiente, por isso, iremos mostrar – por A+B – que a queda da Selic não é motivo de alarme ou preocupação por parte dos investidores, independente do tamanho de sua carteira. Ao contrário, a queda da Selic indica melhorias econômicas, o que traz benefícios gerais para a nação.

 

Queda de juros no Brasil

Inflação

Nem todos têm a ciência do que é a inflação, portanto, de forma bastante direta, a inflação é o aumento generalizado dos preços. Quando você vê na televisão, por exemplo, que a inflação de janeiro foi de 0,50%, isso significa que, de uma forma geral, os preços subiram 0,50%.

“Os preços do que?” De tudo. Do leite na gôndola do supermercado até a mensalidade da internet de sua casa.

É claro que isso não significa que literalmente todos os preços subiram, mas indica que a média de tudo subiu.

No Brasil, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) é considerado o índice oficial de mensuração da inflação. Ele é medido mensalmente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) do primeiro ao último dia de cada mês, em diversos estabelecimentos comerciais, prestadores de serviços, concessionárias de serviços públicos e até mesmo residências, para verificar valores de aluguel.

São considerados vários grupos de produtos e serviços na checagem, a fim de chegar em valores condizentes com a realidade. A importância do cálculo da inflação é tanta que o levantamento de dados considera mais de 22 mil produtos.

Exemplo prático

Em um exemplo prático da inflação, imagine que no dia 01 de janeiro você foi ao supermercado e comprou exatamente 1 kg de tomate por R$ 5,00. No dia 01 de fevereiro (1 mês depois), você voltou ao supermercado e, novamente, comprou exatamente 1 kg de tomate. Dessa vez, porém, o valor pago foi de R$ 5,15.

 
Tomate exemplo inflação
 

Dessa forma, a inflação do tomate no mês de janeiro foi de 3%, pois de R$ 5,00 para R$ 5,15 há um aumento de 3%.

Para deixar claro, esse é só um exemplo didático. Na realidade, produtos de consumo até podem ter uma inflação mensal alta, mas na média os diversos produtos medidos acabam trazendo um valor mais realidade. De forma a não gerar uma visão distorcida, em janeiro de 2017 a inflação medida pelo IPCA foi de 0,37%.

Por que a inflação importa?

Simplesmente porque ela indica quanto nosso dinheiro está desvalorizando ao passar do tempo. Ela serve de medida para reajustar salários e contratos de aluguel, por exemplo.

Imagine que você ganhe R$ 2.000 e sua família consuma 10 kg de tomate por mês. Usando os dados do exemplo anterior, no dia 01 de janeiro você teria gasto R$ 50,00 para comprar 10 kg de tomate.

Já no dia 01 de fevereiro, você teria gasto R$ 51,50 para comprar os mesmos 10 kg de tomate. Perceba que houve um aumento do preço do produto, mas seu salário continuou exatamente o mesmo!

 
Exemplo tomate e salário
 

Dessa forma, você vai acabar gastando mais dinheiro a cada mês para comprar os mesmos produtos. Por isso, inflação é ruim para a economia, pois ela tira o poder de compra do consumidor.

Rentabilidade real

Agora que você entendeu melhor o que é a inflação e como ela atinge nossas vidas, é uma obrigação como investidor entender o conceito de rentabilidade real. Basicamente, é um cálculo muito simples para descobrir a valorização real do seu investimento.

Conforme explicado anterior, medir a inflação é uma forma de mensurar a desvalorização do dinheiro. Em nosso exemplo, usamos como base a desvalorização de um salário mensal, mas podemos aplicar o mesmo conceito aos investimentos, para saber se eles estão, de fato, rentabilizando de uma forma vantajosa. A Poupança, por exemplo, já teve rentabilidade real negativo 2x nos últimos 20 anos.

Assim, calcular a rentabilidade real (para descobrir a valorização verdadeira do investimento) implica em retirar a inflação da rentabilidade total do investimento.

 
Gráfico rentabilidade Poupança 2000-2016
 

Novamente para auxiliar na didática, vamos exemplificar. Dessa vez, porém, com dados reais da Poupança. No gráfico acima, temos: Rentabilidade da Poupança (azul), Inflação (vermelho) e Rentabilidade real (laranja).

Apesar de termos dados de 2000 a 2016 no gráfico, vamos minimizar a área de estudo para 2014, 2015 e 2016.

2014 2015 2016
Poupança 7,02% 7,94% 8,34%
Inflação 6,41% 10,67% 6,29%
Rentabilidade real 0,61% -2,73% 2,05%

Acima temos: a rentabilidade da Poupança, a inflação acumulada do ano e a rentabilidade real.

Para calcular a Rentabilidade Real é muito simples, basta subtrair aa [inflação] do [rentabilidade da Poupança], ou seja: [rentabilidade da Poupança] − [inflação].

 
Cálculo rentabilidade real
 

Se a Poupança rendeu 7,02% em 2014 e a inflação desse ano foi de 6,41%, então a rentabilidade real foi de [7,02%] − [6,41%] = 0,61%.

Da mesma forma para 2015 (7,94% – 10,67% = -2,73%) e 2016 (8,34% – 6,29% = 2,05%).

Se você foi atento ao cálculo, observou que em 2014 a Poupança teve rentabilidade real negativo. Se isso não faz sentido pra você, serei categórico: você perdeu dinheiro na poupança em 2014 porque a inflação (desvalorização do seu dinheiro) foi maior que a rentabilidade do investimento.

É por essas (e outras) que a Poupança é o pior investimento em renda fixa há bastante tempo.
Calcule quanto você perdeu na Poupança ao longo dos anos.

Independente das características da Poupança, agora você sabe calcular a rentabilidade real de um investimento, que é a valorização verdadeira do seu dinheiro. Mas onde entra a queda da Selic nisso?

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Rentabilidade real da Selic

Agora sim, chegamos na última parte desse artigo. Após aprender o que é inflação e a calcular a rentabilidade real de um investimento, é hora de entender porque as oscilações da Selic por si só não são determinantes para dizer se investir em renda fixa vale a pena.

Como visto na seção anterior, a inflação tem grande importância para os investimentos. É importante que ela esteja controlada para que os juros possam cair e o país tenha custos menores para crescer.

Dessa forma, se a Selic está caindo, os juros no mercado financeiro em geral estão caindo também, indicando prosperidade econômica e inflação controlada. Dessa forma, pessoas que “constroem” a economia do país (como comerciantes, prestadores de serviços, empreendedores, etc) podem pegar crédito com custos menores e oferecer mais empregos, menores preços, gerar mais oportunidades e gerar riqueza.

No ano de 2017 muito foi falado porque os juros estavam caindo e as pessoas tinham uma noção generalizada de que os investimentos estavam rendendo menos – o que não é verdade.

Apenas exemplificando, veja os dados da tabela abaixo, onde calculamos a rentabilidade real da Selic nos anos de 2015, 2016 e 2017 (perspectiva em 08/17).

2015 2016 2017
Selic 14,25 13,75% 7,50%
Inflação 10,67% 6,29% 3,50%
Rentabilidade real 3,58% 7,46% 4,00%

Observe que em 2015 a Selic estava em 14,25%, mas a rentabilidade real foi inferior a 2017, com Selic em 7,50% – praticamente a metade do valor de 2015.

Isso tudo se da pela inflação, que estava altíssima em 2015, mas controlada em 2017. Portanto, o que causa grande diferença no seu investimento é a inflação.

Por isso há grande importância para as atitudes econômicas de um governo, pois elas implicam diretamente na vida de todos os brasileiro. Se o governo faz o dever de casa e controla a inflação, a tendência é haver crescimento econômica e geração de riqueza para todos – principalmente para os investidores.

Estudo de caso: Tesouro Selic

Apesar do medo geral de que investir em Tesouro Selic possa ser prejudicial em cenários de queda de juros, isso não se comprova nos dados históricos de rentabilidade desse investimento.

Abaixo temos um gráfico com: Rentabilidade da Selic (azul), Inflação (vermelho) e Rentabilidade real da Selic (laranja).

 
Gráfico rentabilidade Selic 2000-2016
 

Observe que para o período de 2000 a 2016 a rentabilidade do Tesouro Selic nunca teve um ano sequer de rentabilidade real negativa (quando a inflação é maior que a rentabilidade do investimento), como aconteceu 2x na Poupança.

Pela barra laranja (rentabilidade real), é possível observar que mesmo em períodos de dificuldades econômicas, como 2015, a Selic continuou estável, com rentabilidade similar a de outros produtos de renda fixa.

No gráfico acima temos mais de 15 anos de rentabilidade histórica registrada e o investimento manteve-se rentável no longo prazo. Por que agora isso iria mudar?

Poupança x Tesouro Selic

Se você ainda não está convencido de que investir em um produto atrelado a Selic seja boa ideia, compare a rentabilidade da Poupança com o do Tesouro Direto atrelado a Selic (título “Tesouro Selic”) no longo prazo, durante 17 anos.

 
Gráfico Poupança x Tesouro Selic
 

Se você tivesse investido R$ 10 mil na Poupança em 01 de janeiro de 2000, teria em 01/01/2017 o valor de R$ 36.848,41.

Já se tivesse investido os mesmos R$ 10 mil no Tesouro Selic na mesma data (01/01/2000), teria em 01/01/2017 a impressionante quantia de R$ 91.936,11. Isso é 2,5x mais do que o rendimento da Poupança, ou +150%!

Dessa foram, nossa conclusão final é de que o investidor não deve se apegar aos valores absolutos de rentabilidade. É comum ler investidores que buscam “1% ao mês” como valor ideal, mas isso não significa nada.

É extraordinariamente fácil fazer 1% ao mês se estamos em época de altos juros, mas de que adianta fazer 1% ao mês se a inflação é 0,9% ao mês? A rentabilidade real é o que importa.

As circunstâncias mudam ao longo dos anos e o importante é o governo fazer o dever de casa (e sua obrigação) mantendo a inflação baixa.

A partir de agora você já domina o conceito de inflação, sabe calcular a rentabilidade real e pode acalmar seus amigos investidores que neste momento estão preocupados se não vale mais a pena manter seus investimentos em renda fixa – ou, até pior, estão pensando em voltar pra Poupança.